Até o caroço! Deve ser esse o pensamento do traste. Ele a enxerga como fruta no ponto e não pensa em chupá-la para lhe dar prazer. Ele quer todo o sumo pra se nutrir e não sabe plantar a semente.
Não interessa se haverá um amanhã ou frutos de um amor. Quando chegar ao caroço então acabou. Ele quer o grosso caldo, a macia polpa, o doce cheiro... Morde até a casca. Mas pra ele o caroço não tem proveito. Nas mãos do traste a semente é o fim!
Não sei como ela se submeteu tão burramente. Foi penoso vê-la tão desonrada. Esboço de tão linda mulher, mal se fez e já está desfeita. Seus limites estavam ultrapassados, sua ira fedia em seus poros. Mas o medo a condicionava a viver mal.
Dia desses ela o olhou nos olhos e o fez pequeno, bem como ele era. Disse tudo o que lhe cabia. Fez o que queria... Tudo ficou avesso.
O silêncio, mais afiado que a língua, veio na ponta da navalha.
Ele tentou lhe tirar a vida mas as mãos dela foram mais ágeis e mais precisas.
Um fio de coragem, lágrimas pelo chão, álcool, fósforo, paciência.
Não houve nada em seu coração, corpo e mente, senão desespero. Do desespero ficou a exaustão.
Ela repousou sobre o chão frio e seu corpo macio achou descanso. Ela desabou feito edifício velho. Estava podre e desgastada.
Subitamente uma força lhe toma. Tal desfecho foi a realização (revelação) de um desejo oculto. O fogaréu se acendia em seus olhos e lhe tocava como em uma orgia. O fogo era sua paz e seu prazer.
Antes que o dia amanhecesse, ela se levantou: Perfume, vestido de seda, cabelo trançado, brincos, olhos profundos.
A noite lhe convidava para vinho e solidão. As lágrimas se negavam a cair por ele.
Em seu rosto um sorriso veio levemente, estranhamente, lindamente.
Ao fim de cada dia, o peso de sua liberdade escorria pelo seu corpo feito água quente e espuma. A culpa se dissipava com o vapor. Ela se banhava em redenção, e tudo nela se resolvia em incêndio. Se acabava em fumaça.
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